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A Raiz do Bom Pão

Antes de existir farinha, existe cereal. E antes de existir cereal, existe solo — um sistema vivo que, ao longo das últimas décadas, mudou profundamente em Portugal. Hoje, compreender essa transformação não é apenas um exercício técnico: é uma necessidade estratégica para todos os que trabalham na valorização do pão português. A Plataforma Nacional do Pão (PNP) tem, por isso, uma responsabilidade clara: interpretar os dados, antecipar tendências e traduzir o que acontece nos campos para o impacto que sentimos nas padarias. Porque a qualidade do pão começa muito antes da amassadura. Começa na forma como o país cuida da terra.

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10 de dezembro de 2025

Foi exatamente essa realidade que se tornou evidente na Manhã de Campo do projeto InnoCereal https://aposolo.pt/projectos/projeto-innocereal/, na sede da Agrotejo (União Agrícola do Norte do Vale do Tejo), onde se reuniram organizações, técnicos, agricultores e especialistas dedicados à agricultura de conservação e regenerativa.
Estamos a viver uma mudança estrutural no modo como o país produz cereais, obrigatoriamente, no modo como o país faz pão.

O SOLO: UM ECOSSISTEMA QUE FEZ DESPERTAR O SETOR

Os solos albergam um quarto da biodiversidade do planeta. No painel “Solos e Biodiversidade”, observou-se a comunidade invisível que sustenta toda a agricultura, desde minhocas e nemátodes até bactérias e fungos. Este microcosmos não existe por acaso: ele forma a base da fertilidade natural e da resiliência alimentar.

E quando olhamos para o solo como um ecossistema e não como um mero suporte físico, percebemos a razão das técnicas como sementeira direta, enrelvamento, cobertura permanente e rotatividade ampla de culturas serem tão transformadoras.

Estas práticas reduzem a erosão, aumentam a matéria orgânica, melhoram a infiltração de água e diminuem a evaporação. O resultado é traduzido em:

  • Solos mais vivos;

  • Menos perdas de carbono;

  • Estruturas mais estáveis;

  • Menor dependência de químicos;

  • E níveis mais altos de biodiversidade funcional.

No fundo, agricultores tornam-se guardiões de ecossistemas, e isso beneficia toda a cadeia até à padaria.

Uma agricultura que mudou — e que continua a mudar

Os dados mais recentes do INE (2024) sobre a evolução da Superfície Agrícola Utilizada (SAU) mostram transformações profundas entre 1989 e 2023:

  • As terras aráveis diminuíram drasticamente, passando de 59% para 22% da SAU.

  • As culturas permanentes cresceram ligeiramente, estabilizando entre 19% e 23%.

  • As pastagens permanentes tornaram-se dominantes, subindo de 21% para 54%.

Esta evolução tem consequências diretas na fileira cerealífera. Com menos solo disponível para culturas como trigo, centeio ou cevada, a pressão sobre a produtividade agrícola aumenta. O setor deixa de depender somente da área: passa a depender da qualidade do solo e da eficiência das práticas agrícolas.

É aqui que surge a verdadeira mudança de paradigma.


Agricultura de Conservação: um movimento que cresce e ganha forma

Segundo dados do IFAP https://www.ifap.pt/portal/ e do PEPAC https://pepacc.pt/, a Agricultura de Conservação (AC), que integra práticas como sementeira direta, enrelvamento, coberturas permanentes do solo e rotações amplas, tem ganho expressão em Portugal:

  • 2022: 2,9% da SAU

  • 2025 (projeção): 5,7% da SAU

  • Meta 2030: 15%

  • Meta 2050: 30%–40%

Este é um crescimento estruturado, sustentado por ciência e alinhado com recomendações da FAO, que identifica três princípios essenciais:

  1. Perturbação mínima do solo

  2. Cobertura permanente com material vegetal

  3. Diversificação de culturas mediante rotações amplas

Práticas que reduzem a erosão, aumentam a matéria orgânica, melhoram a infiltração de água, diminuem a volatilidade produtiva e regeneram ecossistemas fragilizados.

Não se trata apenas de produzir mais: trata-se de produzir melhor.


Benefícios ambientais, económicos e sociais: um triplo impacto

A agricultura regenerativa e de conservação traz vantagens claras:

Ambiente

  • Redução da erosão.

  • Aumento da fertilidade natural.

  • Menor escorrimento e maior infiltração da água.

  • Captação de carbono e diminuição de emissões.

Biodiversidade

  • Maior presença de fauna auxiliar.

  • Solos mais vivos e equilibrados.

  • Sistemas mais resilientes a pragas e eventos climáticos extremos.

Economia e vida rural

  • Redução de custos operacionais.

  • Menor consumo de combustível.

  • Produtividades mais estáveis.

  • Melhoria da qualidade de vida do agricultor.

  • Fortalecimento das economias locais.

Em conjunto, estes elementos permitem que o país caminhe para uma agricultura mais sustentável e para cereais de maior qualidade.


Certificação: medir, reconhecer e valorizar boas práticas

O modelo de BPAS – Boas Práticas Agrícolas e de Sustentabilidade https://www.dgadr.gov.pt/pt/diretiva-nitratos/codigo-boas-praticas-agricolas permite avaliar a implementação de técnicas como:

  • Rotação de culturas.

  • Utilização de sementes certificadas.

  • Sistemas de monitorização de produtividade.

  • Fertilização otimizada.

  • Integração de bioestimulantes.

  • Cadeias de abastecimento de proximidade.

A certificação exige pelo menos 65% da pontuação total, garantindo rigor e credibilidade.
Este sistema de avaliação cria um elo fundamental entre produção primária, moagem, panificação e consumidor final.

Para o setor do pão, abre caminho a:

  • Maior rastreabilidade.

  • Diferenciação territorial.

  • Estabilidade na qualidade da matéria-prima.

  • Confiança reforçada junto do público.

Que relevância assume esta evolução no contexto da Plataforma Nacional do Pão?

Porque não existe pão de qualidade sem solos de qualidade.

Porque a proteção do solo, a fertilidade natural e a regularidade produtiva são pilares fundamentais para garantir:

  • Cereais com melhor perfil nutricional.

  • Menor volatilidade de produção.

  • Maior segurança alimentar.

  • Cadeias de abastecimento mais estáveis.

  • Menor pegada carbónica.

  • E uma panificação portuguesa alinhada com os desafios climáticos do século XXI.

A Agricultura de Conservação, sustentada por dados de entidades nacionais e europeias, surge exatamente como a ponte entre a responsabilidade agrícola e a excelência alimentar.

A sua evolução não é um exercício académico — é um instrumento concreto de defesa do pão português.

O que significam estes dados para a Plataforma Nacional do Pão

O crescimento da Agricultura de Conservação e a evolução estrutural da SAU têm implicações diretas para a PNP:

A qualidade do solo determina a qualidade do pão — solos vivos, férteis e protegidos resultam em cereais com melhor perfil nutricional e maior regularidade produtiva.

A ligação entre campo e padaria precisa de ser reforçada — a valorização do pão português depende da valorização do cereal português, implicando colaboração com agricultores, moagens, municípios e entidades científicas.

O consumidor está mais atento do que nunca — hoje, comer é também um ato ambiental.
A PNP pode e deve comunicar que o “bom pão” não é somente sabor: é solo saudável, produção responsável, cadeia transparente e identidade cultural.


A Plataforma Nacional do Pão tem aqui um papel central: ser a voz que explica, traduz e valoriza esta transformação.
Unir produtores, padeiros, técnicos, investigadores e consumidores numa visão comum:

Um pão que honra o território, protege o solo e assegura o futuro.

A raiz do bom pão não está apenas na receita.
Está na terra onde tudo começa.

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