Foi exatamente essa realidade que se tornou evidente na Manhã de Campo do projeto InnoCereal https://aposolo.pt/projectos/projeto-innocereal/, na sede da Agrotejo (União Agrícola do Norte do Vale do Tejo), onde se reuniram organizações, técnicos, agricultores e especialistas dedicados à agricultura de conservação e regenerativa.
Estamos a viver uma mudança estrutural no modo como o país produz cereais, obrigatoriamente, no modo como o país faz pão.
O SOLO: UM ECOSSISTEMA QUE FEZ DESPERTAR O SETOR
Os solos albergam um quarto da biodiversidade do planeta. No painel “Solos e Biodiversidade”, observou-se a comunidade invisível que sustenta toda a agricultura, desde minhocas e nemátodes até bactérias e fungos. Este microcosmos não existe por acaso: ele forma a base da fertilidade natural e da resiliência alimentar.
E quando olhamos para o solo como um ecossistema e não como um mero suporte físico, percebemos a razão das técnicas como sementeira direta, enrelvamento, cobertura permanente e rotatividade ampla de culturas serem tão transformadoras.
Estas práticas reduzem a erosão, aumentam a matéria orgânica, melhoram a infiltração de água e diminuem a evaporação. O resultado é traduzido em:
Solos mais vivos;
Menos perdas de carbono;
Estruturas mais estáveis;
Menor dependência de químicos;
E níveis mais altos de biodiversidade funcional.
No fundo, agricultores tornam-se guardiões de ecossistemas, e isso beneficia toda a cadeia até à padaria.

Uma agricultura que mudou — e que continua a mudar
Os dados mais recentes do INE (2024) sobre a evolução da Superfície Agrícola Utilizada (SAU) mostram transformações profundas entre 1989 e 2023:
As terras aráveis diminuíram drasticamente, passando de 59% para 22% da SAU.
As culturas permanentes cresceram ligeiramente, estabilizando entre 19% e 23%.
As pastagens permanentes tornaram-se dominantes, subindo de 21% para 54%.
Esta evolução tem consequências diretas na fileira cerealífera. Com menos solo disponível para culturas como trigo, centeio ou cevada, a pressão sobre a produtividade agrícola aumenta. O setor deixa de depender somente da área: passa a depender da qualidade do solo e da eficiência das práticas agrícolas.
É aqui que surge a verdadeira mudança de paradigma.
Agricultura de Conservação: um movimento que cresce e ganha forma
Segundo dados do IFAP https://www.ifap.pt/portal/ e do PEPAC https://pepacc.pt/, a Agricultura de Conservação (AC), que integra práticas como sementeira direta, enrelvamento, coberturas permanentes do solo e rotações amplas, tem ganho expressão em Portugal:
2022: 2,9% da SAU
2025 (projeção): 5,7% da SAU
Meta 2030: 15%
Meta 2050: 30%–40%
Este é um crescimento estruturado, sustentado por ciência e alinhado com recomendações da FAO, que identifica três princípios essenciais:
Perturbação mínima do solo
Cobertura permanente com material vegetal
Diversificação de culturas mediante rotações amplas
Práticas que reduzem a erosão, aumentam a matéria orgânica, melhoram a infiltração de água, diminuem a volatilidade produtiva e regeneram ecossistemas fragilizados.
Não se trata apenas de produzir mais: trata-se de produzir melhor.
Benefícios ambientais, económicos e sociais: um triplo impacto
A agricultura regenerativa e de conservação traz vantagens claras:
Ambiente
Redução da erosão.
Aumento da fertilidade natural.
Menor escorrimento e maior infiltração da água.
Captação de carbono e diminuição de emissões.
Biodiversidade
Maior presença de fauna auxiliar.
Solos mais vivos e equilibrados.
Sistemas mais resilientes a pragas e eventos climáticos extremos.
Economia e vida rural
Redução de custos operacionais.
Menor consumo de combustível.
Produtividades mais estáveis.
Melhoria da qualidade de vida do agricultor.
Fortalecimento das economias locais.
Em conjunto, estes elementos permitem que o país caminhe para uma agricultura mais sustentável e para cereais de maior qualidade.

Certificação: medir, reconhecer e valorizar boas práticas
O modelo de BPAS – Boas Práticas Agrícolas e de Sustentabilidade https://www.dgadr.gov.pt/pt/diretiva-nitratos/codigo-boas-praticas-agricolas permite avaliar a implementação de técnicas como:
Rotação de culturas.
Utilização de sementes certificadas.
Sistemas de monitorização de produtividade.
Fertilização otimizada.
Integração de bioestimulantes.
Cadeias de abastecimento de proximidade.
A certificação exige pelo menos 65% da pontuação total, garantindo rigor e credibilidade.
Este sistema de avaliação cria um elo fundamental entre produção primária, moagem, panificação e consumidor final.
Para o setor do pão, abre caminho a:
Maior rastreabilidade.
Diferenciação territorial.
Estabilidade na qualidade da matéria-prima.
Confiança reforçada junto do público.
Que relevância assume esta evolução no contexto da Plataforma Nacional do Pão?
Porque não existe pão de qualidade sem solos de qualidade.
Porque a proteção do solo, a fertilidade natural e a regularidade produtiva são pilares fundamentais para garantir:
Cereais com melhor perfil nutricional.
Menor volatilidade de produção.
Maior segurança alimentar.
Cadeias de abastecimento mais estáveis.
Menor pegada carbónica.
E uma panificação portuguesa alinhada com os desafios climáticos do século XXI.
A Agricultura de Conservação, sustentada por dados de entidades nacionais e europeias, surge exatamente como a ponte entre a responsabilidade agrícola e a excelência alimentar.
A sua evolução não é um exercício académico — é um instrumento concreto de defesa do pão português.
O que significam estes dados para a Plataforma Nacional do Pão
O crescimento da Agricultura de Conservação e a evolução estrutural da SAU têm implicações diretas para a PNP:
A qualidade do solo determina a qualidade do pão — solos vivos, férteis e protegidos resultam em cereais com melhor perfil nutricional e maior regularidade produtiva.
A ligação entre campo e padaria precisa de ser reforçada — a valorização do pão português depende da valorização do cereal português, implicando colaboração com agricultores, moagens, municípios e entidades científicas.
O consumidor está mais atento do que nunca — hoje, comer é também um ato ambiental.
A PNP pode e deve comunicar que o “bom pão” não é somente sabor: é solo saudável, produção responsável, cadeia transparente e identidade cultural.
A Plataforma Nacional do Pão tem aqui um papel central: ser a voz que explica, traduz e valoriza esta transformação.
Unir produtores, padeiros, técnicos, investigadores e consumidores numa visão comum:
Um pão que honra o território, protege o solo e assegura o futuro.
A raiz do bom pão não está apenas na receita.
Está na terra onde tudo começa.





